domingo, 16 de abril de 2017

O senhor das moscas, de William Golding (1954)



Tradução de artigo do The Guardian sobre o livro “O senhor das moscas”.

O senhor das moscas, de William Golding (1954)
Robert McCrum
Da série "Os cem melhores romances"

Rejeitada a princípio como “lixo e enfadonho”, a fábula da ilha deserta, uma distopia descrita brilhantemente, tornou-se desde então um clássico.

Como todos os mais recentes romances desta lista (69-73), O Senhor das Moscas deve muito de seu ímpeto e poder sombrios à Segunda Guerra Mundial, na qual Golding serviu como um jovem oficial da marinha. Suas experiências em Walcheren em 1944 nutriram um apetite por extremos quase medievais, misturando ficção e filosofia, o que nem sempre é uma receita para o sucesso em romances. Entretanto, O Senhor das Moscas permanece tanto universal como de fato profundamente inglês, com laços com Defoe, Stevenson e Jack London (Robinson Crusoe, Kidnapped, Coração das Trevas, nesta série - Os cem melhores romances).

Nos anos 1950, agora como professor numa escola de primeiras letras, Golding estava lutando para fazer de si mesmo um romancista, tendo já publicado um livro de poemas em 1934. Sua esposa, Ann, que exerceu um papel crucial em sua vida criativa, sugeriu A Ilha de Coral, de R.M. Ballantyne, como uma fonte de inspiração. O resultado: uma fantasia distópica de sobrevivência pós-apocalíptica de um grupo de adolescentes e pré-adolescentes numa remota ilha tropical. Mas esta é completamente diferente do mundo de Robinson Crusoé ou de Long John Silver.

O Senhor das Moscas (cujo título deriva de uma transcrição de “Beelzebub”) é o trabalho de um professor inglês com um gosto por grandes temas e engaja o leitor em três níveis. Primeiro, é um estudo acurado de adolescentes liberados da coleira das regras e das convenções. Os principais personagens – Ralph, Jack e Porquinho – representam arquétipos do estudante inglês, mas Golding entra em suas peles e os faz reais. Ele sabe como eles pulsam e recorre a sua própria experiência para explorar a ruptura aterrorizante de sua comunidade.

Em segundo e terceiro lugares, O Senhor das Moscas apresenta uma visão da humanidade inimaginável antes dos horrores da Europa nazista, e mergulha em especulações sobre a espécie humana no estado de natureza. Desolador e específico, porém universal, mesclando raiva e angústia, O Senhor das Moscas é tanto um romance dos anos 1950, quanto de todos os tempos. Um estranho tipo de paraíso se torna um retrato desolador da vida em um mundo pós-nuclear. Talvez não seja surpresa que ele tenha se tornado um clássico cult dos anos 60, sendo lido tão avidamente como O Apanhador no Campo de Centeio, To kill a mocking bird e On the road.

Antes de completar seu romance, William Golding tinha sido apenas um tímido e estranho professor de inglês na escola Bispo Wordsworth, em Salisbury, apelidado de “Scruff” (desleixado). O Senhor das Moscas, escrito durante 1952-1953, foi sucessivamente rejeitado antes de sua publicação triunfante em 1954. Primeiramente intitulado “Estranhos de dentro” (Strangers from Within), o romance não apenas recebeu um desprezo quase universal, ele foi também o último lance desesperado de um professor esquisito que tinha lutado por anos para encontrar um público.

Sua filha Judy, nascida no final da guerra, era muito jovem para lembrar de seu pai escrevendo o romance, mas ela me disse numa entrevista alguns anos atrás: “Eu me lembro das cópias do manuscrito indo e vindo, saindo e voltando. Nós vivíamos com uma renda bastante apertada, de modo que a postagem deve ter sido uma despesa significativa”.

A lenda desse romance icônico do pós guerra tornou-se conhecida, com muitos episódios. Quando o romance chegou pela primeira vez na editora Faber & Faber (que seria quem a publicaria afinal), ele era um manuscrito com mordida de cachorro, que tinha obviamente passado por muitas outras editoras. Sua primeiro leitora interna, uma certa Miss Perkins, descartou-o tornando famosa a avaliação negativa ao dizer que o romance era uma “fantasia absurda e desinteressante sobre a explosão de uma bomba atômica nas colônias. Um grupo de crianças que aterrissam numa terra selvagem perto da Nova Guiné. Lixo e enfadonho. Insípido”. Entretanto, um jovem editor recém contratado, Charles Monteith, discordou. Ele viu que o primeiro capítulo (sobre as consequências da bomba) podia ser descartado e lutou pelo livro. Tendo persuadido Golding a cortar e reescrever, encaminhou-o para publicação. Monteith, que eu cheguei a conhecer bem, estava fazendo o que Maxwell Perkins fez por Thomas Wolfe ou Gordon Lish por Raimond Carver. Esta é uma habilidade rara no campo da edição hoje em dia.

Por fim, o romance vendeu mais de dez milhões de cópias, mas a fama e o sucesso não vieram do dia para a noite. A primeira impressão, de cerca de três mil cópias, vendeu vagarosamente. Gradualmente, as qualidades do livro conquistaram atenção qualificada. Um ponto de virada ocorreu quando E. M. Forster elegeu O Senhor das Moscas como seu “melhor romance do ano”. Outras críticas o descreveram como “uma aventura de primeira categoria, uma parábola de nossos tempos”. Judy Golding me disse que foi somente “cinco anos mais tarde, depois que o filme (dirigido por Peter Brook) apareceu, que eu notei que os pais de meus amigos se tornaram subitamente interessados no papai”.

Desde então, o romance se tornou uma leitura cult. Quando eu trabalhei na Farber nos anos 1980, nós costumávamos reimprimi-lo, cem mil cópias de cada vez, ano após ano. Acredito que isso ainda aconteça. Essa é uma definição de clássico, um livro que mesmo quando o lemos pela primeira vez, nos dá a impressão de reler algo que já lemos antes. Nas palavras de Ítalo Calvino, “um clássico é um livro que nunca esgotou totalmente o que ele tem a dizer para seus leitores”.

O Senhor das Moscas exerceu larga influência sobre muitos escritores ingleses e americanos, incluindo Alex Garland, cujo A Praia faz homenagem ao original de Golding. Nigel Williams também adaptou O Senhor das Moscas para o teatro, numa versão poderosa e contundente, que ajudou a sustentar a trajetória do romance.

Três outros livros de William Golding:
The Inheritors (1955); The Spire (1964); Rites of Passage (1980).

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